Elza Soares é tida, hoje, como a “deusa empoderada” da década, que canta a desigualdade e dá voz às minorias políticas. Pois bem. Ela é! Só que não é de hoje.

Elza é uma fênix da MPB que passeia pelos estilos todos como se fosse filha do Tropicalismo, e não do Samba, que é. Elza é Brasil. Negra, periférica, perseguida, esquecida, reverenciada, amada, odiada. Ela passou por tudo isso. E (de novo) se renovou artisticamente em 2015 com o premiado e aclamado A Mulher do fim do mundo, álbum que aproximou Elza do público mais jovem e o primeiro de inéditas de toda sua carreira.

Agora, em 2018, lançou mais um álbum de igual grandeza no qual afirma que Deus é Mulher (e que precisamos falar dele aqui também!), mas o que poucos sabem é que esta mulher vem se remodelando há anos na sua carreira musical que já completou 6 décadas!

Elza começou em 1958, no show de calouros apresentado por Ary Barroso na rádio carioca Cruzeiro do Sul. Passou difíceis momentos na carreira e renasceu (como a fênix que é) depois que, já tendo desistido da música, foi convidada por Caetano Veloso para um dueto em “Língua”, um samba-rap de composição do tropicalista.

Mas, o que algumas dessas pessoas que clamam por Elza Soares não conhecem, é um dos álbuns mais fantásticos da carreira da cantora que chegou, na última sexta-feira, 24, às plataformas digitais e está sendo relançado pelo selo Dubas: Do cóccix até o pescoço, de 2002, que traz hinos ao feminino, duras críticas sociais, e é ainda tão atual.
O disco (que na verdade foi lançado em CD) conta com canções de Chico Buarque, Caetano Veloso, Luiz Melodia, Seu Jorge, Jorge Benjor, dentre outros.

Canta à Iemanjá em “Hoje é dia de festa”, de Jorge Benjor; Em “Haiti”, de Gil e Caetano, Elza grita escancarando o racismo, a desigualdade de classes em um Brasil hipócrita que se alegra com as festividades negras, mas não olha para o sofrimento e para a discriminação que esse povo sofre, de um jeito que só Elza sabe fazer. E pede, quase implorando, que oremos pelo Haiti. Esse grito se estende em “A Carne”, de Seu Jorge, Marcelo Yuka e Wilson Cappellette, na qual diz, dolorida, que “a carne mais barata do mercado é a carne negra”.
“Fadas” tem uma pegada tango que Elza deu à canção de Luiz Melodia; canta o poema modernista de Oswald de Andrade musicado por Wisnik: “Flores horizontais”. “A cigarra” é um dueto com Letícia Sabatella à Santa Clara, elas também assinam a composição.
“Todo dia”, com Abm De Aguiar, é um dueto que fazia parte do “bônus” no lançamento original, juntamente com “Façamos!”, de Chico, que divide a faixa com Elza numa pegada meio blues tupiniquim de qualidade.
“Dor de cotovelo”, composta por Caetano, diz que a dor de ciúme “Dói da flor da pele ao pó do osso/ Rói do cóccix até o pescoço”, que é de onde saiu o título do álbum.
Em algumas canções desse disco, como “Hoje é dia de festa” é possível ouvir o agudo incrível da voz rouca de máquina de Elza Soares.
Pois bem, o disco já está disponível nas plataformas digitais, canais de streaming, então, se você nunca ouviu (ou mesmo se já tiver ouvido) pare o que está fazendo AGORA e vá ouvi-lo!
Ouça no YouTube, no canal oficial da Elza: