31 de Outubro de 2010, o Brasil elege sua primeira presidenta da república. Sucessora do maior líder do seu partido, que passava a faixa com recorde de aprovação popular (83%!). Havia ocupado ministério, é economista, mineira, ex-guerrilheira, presa política torturada pela diatadura que assombrou esse país por vinte e um anos (1964 – 1985). No segundo ano do proimeiro mandato, em maio de 2012, instaurou a Comissão Nacional da Verdade, CNV, que tinha como objetivo revirar o assombroso passado escondito sob fardas apurando as violações dos direitos humanos, dando direito à memória, trazendo à tona a verdade, reconhecendo os desaparecidos como mortos pelo Estado e investigar para, finalmente, punir os envolvidos nas torturas e assassinatos cometidos pelo regime. Com figurões delatando e morrendo, sucessivamente. Depoimentos, cartas, nomes, sobrenomes, diários, documentos, acusados,. Impeachment. Essa revirada no esgoto não sairia impune. em 2016, no segundo ano do segundo mandato, Dilma Rousseff tem seu mandado caçado, seus direitos políticos mantidos, Temer toma posse, ninguém mais ouve falar em CNV e o resto é história…

Fato é que esta CNV mexeu com a história de centenas de famílias, das 434 mortes reconheidas – sem contar o genocídio indigena e as invasões em favelas semelhantes às que ainda vemos hoje -, de pesoas das mais diversas regiões, classes e lutas. Como afamília do ex-deputado, cassado pelo regime, Rubens Paiva.

Rubens foi retirado de casa, no Leblon, zona sul do Rio de Janeiro, por agentes das forças aéreas, no feriado de 20 de Janeiro, dia do santo mártir, morto a flechadas, protetor dos soldados e padroeiro da cidade maravilhosa, São Sebastião. Disseram que prestaria um depoimento e voltaria em breve, talvez pro jantar,talvez pro almoço do dia seguinte. Rubens foi, dirigindo seu carro, na companhia de alguns meganhas enquanto outros ficaram na casa, com a família, devidamente fechada – janelas, cortinas e portas. Ninguém sai. Quem entra, não sai mais. Ele não voltou pro jantar, não estava no almoço do dia 21 no qual os homens do estado se fartaram.
Então levaram Eunice, sua esposa, mãe de seus cinco filhos, exemplar zeladora do lar e da família. Junto dela, Liana, sua filha de 15 anos. Foram, encapuzadas, até o batalhão, na Tijuca, onde Liana passaria dois ou três dias e Eunice, 12. Sem notícias, sem banho, sem luz do sol, sem saber como estavam seu marido, sua filha que fora levada em sua companhia, seus outros três filhos que estavam no Rio e sua filha mais velha, na Europa. Foi liberada. Reencontrou seus quatro filhos que estavam em solo pátrio. Nada do marido. E nada do marido pelos próximos vinte e cinco anos. As forças militares diziam que ele teria sido interceptado por guerilheiros enquanto o trocavam de cadeia e levado para lugar desconhecido. Já o Ministro do Exército dizia que ele estava macucado, por isso internado, e logo teria alta e voltaria para casa, liberado. Diferente do que prometeram, Rubens não voltou para mais nenhum almoço ou jantar. Só nos anos de 1990, durante o governo FHC, foi reconhecido seu óbito, depois de muitos anos de luta da viúva, agora advogada renomada e incansável, Eunice Paiva.
Eunice era uma clássica dona de casa: cuidava da casa, do marido, dos cinco filhos, dava festas, estava sempre linda e pronta para acompanhar o marido, deputado e engenheiro, em todas as situações. Após todo o caos instaurado em sua vida pelo Regime, Eunice não ficou parada: entendeu que sua dor e da sua família, a perda, a insegurança, não eram isoladas, eram compartilhadas com mais tantas famílias no Brasil. Ela e sua família ocupavam as manchetes, mas, e as outras, as que não têm visibilidade e contatos… seriam representados por eles, que não seria A família ferida pelo regime, mas UMA DAS. Eunice não parou por aí: formou-se advogada, passou a assessorar causas indígenas, importantes órgãos nacionais e internacionais, braços do Governo. Foi – e é – uma importante referência para democratas dos mais variados seguimentos. Hoje, dá nome a um prêmio que reconhece e homenageia personalidades que se destacam na defesa da democracia.

Com a CNV anos mais tarde, soube-se detalhes do que aconteceu com Rubens – para onde foi levado e por quem, as sessões de tortura, como foram feitas e por quem. O dia do seu óbito (na madrugada de 21 para 22 do mesmo Janeiro). Nome, sobrenome, patente, endereço, salário, tudo, tudo de quem participou ativa ou passivamente não só nessa, mas em tantas outras sessões de torutura e mortes. Só não sabiam onde tinham desovado o corpo.

Em 2015 chega às livrarias o livro de número 12 de um exímio escritor brasileiro de best sellers como Feliz Ano Velho e Malu de Bicicleta, Marcelo Rubens Paiva, filho do deputado torturado e morto pelo regime, Rubens Paiva, e da incansável advogada viúva destemida, Eunice Paiva, que àquela altura estava acometida pelo Alzheimer e não se lembrava mais do que havia passado com seu marido, os anos de luta contra a ditadura, emprol dos direitos indígenas, o ativismo nos direitos humanos, da derrota do regime, dos filhos… mas repetia, incansável, que ainda estava ali. O tal livro conta a história de Rubens pelo ponto de vista, força e luta de Eunice e é genialmente intitulado “Ainda Estou Aqui”. Estão: o injustiçado, a justiceira e os legados respectivos.

Um dos maiores diretores do cinema brasileiro, ex-frequentador da ensolarada casa à beira-mar do Leblon, Walter Salles, leu o lívro de meórias, se comoveu, relembrou da fantástica casa de sua infância, com seus fantásticos frequentadores – de políticos a artistas – e percebeu que aquela história precisava ser contada, principalmente tendo em vista o momento político do país: ascenção extratosférica da extrema dieita, Bolsonaro no poder, meninos vestem azul e meninas vestem rosa, pandemia, mortes, crimes e mais crimes, impunidade, exaltação ao golpe, caça aos artistas, golpistas e torturadores e a terrível nuvem com cheiro de intervenção pairando no ar. Daqui vem o filme que já entrou para a história do cinema brasileiro e mundial, indicado e vencedor nos mais importantes festivais de cinema ao redor do mundo. Um elenco impecável encabeçado por Fernanda Torres no papel de Eunice, Selton Mello como Rubens Paiva, as ótimas Valentina Herszage, Luiza Kosovski, Bárbara Luz e Cora Mora nos papeis das filhas, e Guilherme Silveira encarnando de forma moleca o escritor-filho Marcelo, Pri Helena como a babá Zezé. Salpicam participações pra lá de especiais como as de Dan Stulbach, Humberto Carrão, Daniel Dantas, Maeve Jinkings, além da coroação final de ter Fernanda Montenegro dividindo a personagem com a filha. A cenografia é linda, os detalhes, a película, a trilha sonora!!! Essa, é um show à parte. Trouxe Erasmo para o topo das mais ouvidas, bombardeio de “É preciso dar um jeito meu amigo” por todos os lados. Tom zé!! Gal! Tudo muito sofisticado. Os carros antigos ocupando a Delfim Moreira. A casa, linda, retirada da São Luiz com a Roquete Pinto, na Urca, bairro militar carioca que sediou as gravações, e posta na Delfim com a Almirante Pereira Guimaraẽs numa pós inacreditável. A direção precisa e delicada do Walter, a forma que ele escolheu para contar essa história. Todos os aplausos a Walter Salles, Fernanda Torres, todo impecável elenco, equipes de tudo que se possa imaginar envolvidas num trabalho desse porte. Essa obra é um retrato do que foi a dilascerante ditadura no seio das famílias brasileiras, a crueldade de arrancar de dentro das suas casas pais, mães, filhos, amigos, muita gente que saiu e não voltou mais. Os que voltaram quebrados, irrecuperáveis psicológica e emocionalmente. Todo o horror cometido em nome de uma pauta irreal. Que usemos da arte para refletir as mazelas do passado, reforçando o cuidado de não repetí-las no futuro, no presente, nem em pensamento.

Como se já não bastasse, o filme é uma celebração de reencontros: das Fernandas com Walter Salles, com quem trabalharam em Terra Estrangeira e Central do Brasil, respectivamente. Fernanda com Daniela Thomas, com quem trabalha desde o Terra e foi uma das diretoras de sua série autoral, Fim. E de Torres, Walter e do Brasil com os prêmios que perderam a Montenegro e o Central, 25 anos atrás: Globo de Ouro e (os aguardados) Oscars de Melhor atriz, Melhor Filme Internacional e (uau!!) Melhor Filme. Aliás, já foram mais de 20 premiações ao redor do mundo.

Celebremos nossa Arte, nossos Artistas, nossos incansáveis fazedores de cultura, que vivem sob o julgador olhar de uma sociedade carente de si. Façamos o Brasil nos palcos, nas telinhas e nas telonas. Comunguemos das tristezas e feridas, cujas cicatrizes devem ser tratadas de forma a não se esquecer do que machuca.
Viva o Cinema Brasileiro! Viva a Cultura Brasileira! Viva a Democracia! Ditadura nunca mais!!
